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Filipe AzevedoPresença virtual 8 octobre Li um livro à minha estanteLi o meu livro à minha estante de livros.
A primeira reacção foi a de que os outros livros acharam que já sabiam tudo, que já conheciam todas as histórias, que não precisavam de mais esta. Alguns agitaram nervosamente as páginas, outros bocejaram as capas. No entanto, outros mais pequenos, meio escondidos entre os Best Sellers e os Clássicos da Literatura, começaram a abrir muito as letras, concentrados na minha leitura, a tentar compreender a história que o livro na minha mão contava.
A história era simples, falava apenas da Rosa Caramela, corcunda e louca, que adorava estátuas de pedra. Não tinha aquelas grandes frases que são referências literárias, nem se perdia em teias de personagens e acontecimentos importantes que tanta falta nos fazem para a nossa cultura geral. Mas foram os pequenos livros que primeiro perceberam que nada disso era preciso para se contar uma boa história. E os grandes foram progressivamente ouvindo…
Primeiro estancou um que não usava uma pontuação normal e logo de seguida estarreceram outros que tinham o hábito da dupla adjectivação ou do discurso indirecto livre. Às tantas todos ouviam sossegados mas inquietos aquela simples história da Rosa Caramela que passou a ser só Rosa porque lhe chamavam Caramela. E depois aquelas palavras torcidas que destorciam o seu sentido para passar a significar o que verdadeiramente significavam sem nunca o terem significado.
No final, na minha estante de livros, viam-se que nalguns o título tinha mudado de cor, outros trocavam nervosamente as páginas e alguns deixavam escorrer timidamente uma exclamaçãozinha junto à lombada. 11 février O envelopeDecorria o dia 22 de Junho de 2005. A internet era agora um espaço habitual de mensagens pessoais, de convívios intrigantes, de registos. O envelope que continha todas as cartas que o carteiro já não trazia. Abri a minha carta e li as palavras dela, alinhadas à esquerda:
Já não era preciso esperar dois ou três dias para a viagem de cada carta até nós. A tinta já não precisava de secar. Nem era preciso desenhar cada letra, cada palavra, medindo-lhe a forma e o estilo. No entanto, só quando em Agosto o carteiro voltou a não me trazer o envelope é que recebi a minha mensagem:
Desta vez vinha azul, como quem quer ser tinta. Criptográfica, paradoxal, como se quisesse substituir as batidas frias dos dedos no teclado pelas já esquecidas curvas enredadas da mão sobre o papel. 1 février PedestalPelo menos para uma cidade, aqueles prédios eram todos baixos. Rodeavam a praça que, não sendo pequena, ainda mantinha um certo aconchego familiar, com um sol a reflectir-se naquele chão marmóreo colorido. Um constante azul do céu a recortar a torre da igreja destacava a revoada de pombos que agora fugiam das quatro badaladas comandadas pelo relógio. Foram pousar em baixo, entre o movimento pacífico das pessoas que atravessavam o espaço, distraídas, sem olhar para a desproporcionada coluna coríntia, mesmo no meio da praça, que parecia esperar pela estátua que a completasse. Até tinha, na base, quatro degraus oitavados a convidar que a subissem. Uma mensagem completava as quatro faces do pedestal. Contornei-o, vendo distraidamente aquelas palavras, aproximei-me, curioso, e pude ler: “A M.M.Barbosa du Bocage admiradores seus portugueses e brasileiros MDCCCLXXI; de Elmano eis sobre o mármore sagrado a lyra em que chorava ou ria amores”. Senti o frio da sombra nas minhas costas. Voltei-me. A estátua olhava atentamente para cima, a medir os dez metros da coluna, incapaz de piscar a concha branca do olhar sem pálpebras. Já satisfeita com o cálculo, voltou-se para mim, tocou-me no ombro com a mão esculpida e sorriu-me, enrugando ligeiramente o mármore do rosto. Mais alta do que eu uns bons vinte centímetros, avançou pelos degraus, trepou o pedestal e abraçou a coluna. Com a mesma facilidade irreal, subiu até ao capitel e ergueu-se sobre ele. Da capa tirou uma pena e algumas folhas de papel, pronto para escrever. E meditou. Um dos pombos que esvoaçavam em bando por ali pousou-lhe no ombro e a estátua inclinou ligeiramente a cabeça, para ouvi-lo.13 janvier A lente embaciadaA manhã estava fresca e com uma daquelas neblinas muito brilhantes e transparentes que já nos mostram que é uma manhã fresca mesmo antes de a sentirmos. O trânsito era pouco e podíamos ver, ao fundo da larga avenida, o rio e o mar, hoje cheios de brilhos translúcidos.
Parei de escrever para saborear o chá aromático e tirei os óculos para as lentes não embaciarem. Fiquei a pensar que ainda não me tinha habituado a usá-los. Voltei à escrita.
Nos bancos de trás eles vinham animados, como sempre nestes dias de luz renascida. Era a Inês que lançava o tema. Que tinha sonhado com coisas terríveis, assustadoras. Que não gostava nada destes pesadelos. Se também não lhes acontecia a eles. E foi o Filipe que argumentou: - Eu escolho os meus sonhos! Quando não gosto mudo para outro. Olha, faço assim, viro os olhos para o outro lado e o sonho muda. - ria-se - E até os guardo quando gosto e depois continuo noutro dia. Olha, já tenho um monte deles guardados para continuar.
A cidade continuava desarrumada, como sempre, mas talvez os dias calmos lhe disfarçassem o mau ar. Por isso, ou porque sonhasse, o Afonso continuava a olhar pela janela e não disse palavra. Os outros, contaminados, resolveram fazer o mesmo. 8 janvier Um caso criminalO tipo leu o que escrevinhei na parede um palmo mais abaixo e ia pensando que já lhes conhecia a pinta. Sim. Já tinha percebido perfeitamente! Que este que andava aqui a atirar barro à parede tinha uma mania que o identificava! Oh, se tinha! Tinha a mania das contradições, das confusões aparentemente intelectuais mas na verdade vazias de sentido, das antitesezinhas, das tautologiazinhas, das afirmações inesperadas... Ah, mas a ele não o havia de enganar, não! Ele já sabia perfeitamente que o culpado era perfeitamente previsível e que, sem dúvida, era sempre a mesma pessoa.
Agora era só esperar que ele aparecesse outra vez, assim, aqui escondido nesta esquina, e apanhá-lo. Apanhá-lo em flagrante delito de culpa escrita e borrada. Era assim que o ia apanhar: a desenhar na parede amarela o próximo trocadilho sobre o não pensar ou o não escrever que não eram mais que uma redundância suja do que escrevia por todo o lado. Sim, que ele já o seguia há anos, já vira como ele fizera o mesmo em paredes brancas, azuis, castanhas, enfim, não respeitava cor nenhuma! Era decididamente um indivíduo antisocial, altamente subversivo e capaz de causar agitação e distúrbio na paz da nossa suave existência. A abater! Acharia este criminoso de grafitis caligráficos que se escaparia? Pois ali estava ele, pronto a apanhá-lo e a denunciá-lo a quem de direito!
Felizmente nesse dia eu tinha chegado cautelosamente e vi o tipo a vigiar a parede onde eu efectivamente iria escrever mais uma redundância existencial. Não havia dúvida que aquele tipo já me conhecia bem. Mas tinha de ser logo naquele dia quando eu ia denunciar publicamente uma visão dos nossos humanos conflitos internos? Quando ia metaforicamente criar umas personagens a monologar uma sobre a outra? Bolas! Tive de desistir. Por isso é que não escrevi nada. 7 janvier Apagar as letrasComecei por não escrever aqui.
É que se não escrevesse seria necessário escrever e se escrevesse teria de dizer que se escrevesse aqui já estava aqui escrito o que não iria escrever, por isso escrevo, porque não escrevo aqui o que aqui está escrito, embora esteja.
Quer dizer, torna-se difícil ler aqui o que não escrevo nem o que escrevo, porque só não lendo se percebe que não se percebe que afinal aqui está escrito que aqui não está escrito o que aqui está escrito. E como eu não gosto de complicar as coisas, optei por explicar desta forma simples porque é que não escrevi aqui nada.
Acho eu.
Pois. 28 décembre Hoje não penseiHoje pensei que ainda não tinha pensado. Por isso, pensei. E veio-me a ideia de que isto só me acontece porque penso demais. Acabei por achar que penso em coisas que não interessam a ninguém e que se calhar, de tão essenciais que são, não servem para nada. Afinal o que interessa não é o essencial. O que importa é a ninharia do quotidiano. Para que interessa pensar no extermínio na vida da Terra com a queda de um cometa se basta não termos cuidado a atravessar a estrada? Porque não fazer por comprar uma boa casa se a consciência de que o planeta onde vivemos vai deixar de existir não serve para nada? Por isso decidi e está decidido: hoje não penso! Nem penso que não penso, porque isso já é pensar. E recuso-me a escrever sobre o assunto, porque isso também seria pensar (embora haja muito escrito por aí que nunca foi pensado). E mais: não vou ler o que aqui está escrito porque me cheira a coisa de alguém que anda a fazer trocadilhos. Aconselho, a quem leu, que faça o mesmo. 18 décembre A razão da imaginaçãoSomos enganados pela imaginação porque imaginamos que ela nos engana. Para evitar isso, imaginamos todas as formas possíveis de não sermos enganados pela imaginação que imaginámos. E é normalmente aí que imaginamos não estar a ser enganados pela imaginação que nos engana, quando a usamos, porque imaginamos estar a usá-la.
Assim, só podemos estar enganados do nosso engano já que a imaginação é um engano imaginado. 14 mai A medida das coisasÉ importante ter dinheiro para comprar uma boa casa, um barco, viajar. A Voyager tirou uma fotografia para trás e já lá não estava nada. O acidente na autoestrada é um acontecimento grave. Os dinossauros eram os maiores até cair uma pedra na Terra. Viver até aos 100 é uma proeza. A luz do Sol demora cerca de 8 minutos a chegar cá. |
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